"A ambição promove tanta atrocidade contra a floresta é também responsável pela seca prolongada".
Making of da reportagem "Amazônia em Crise":Bela e triste Amazônia
Por José Raimundo
Gostaria muito de fazer um relato de viagem baseado em impressões de visitas anteriores que fiz à Amazônia. Foram aventuras emocionantes e enriquecedoras. Imagens de tirar o fôlego e conversas prazerosas com os sábios caboclos do Norte, sem esquecer os índios, tão sábios quanto. Impossível não lembrar que aquele santuário infinito abriga a harmonia incomparável entre o homem nativo e a riqueza da fauna. Em meio aos labirintos inundados de floresta densa, os bichos viviam em festa. Meu coração também era contaminado pela alegria dos animais e a beleza da selva. Eu voltava para casa em estado de graça.
Mas desta vez, confesso: preferia não ter visto tamanha calamidade. Encontrei uma Amazônia irreconhecivelmente triste. Nunca imaginei que fosse botar os olhos em vazantes imensas como as deste ano. Já acompanhei períodos de seca na região em anos anteriores, mas com doses, diria, suportáveis de castigo. Eu, a editora Ana Helena Gomes, o repórter cinematográfico José de Arimatéa, o técnico Adriano Moraes e até o nosso amigo Carlos Barbosa, da TV Amazonas, bom companheiro de viagem, ficamos todos assustados com o que testemunhamos. Cenas que impressionaram também os colegas da edição de imagens: Adriana Nagle, Francisco Carvalho e Gisele Machado.
Na maior reserva de água doce da Terra, a sede tem obrigado a população ribeirinha a enfrentar caminhadas de vários quilômetros – duas, três vezes por dia – até encontrar rios capazes de fornecer água potável. Sem falar da fome, um drama que, desta vez, atingiu milhares de famílias. Não fosse uma operação emergencial de socorro, envolvendo governo, Forças Armadas e Defesa Civil dos municípios, a situação seria muito mais grave. Em muitas regiões onde se localizam comunidades que ficaram isoladas, o helicóptero é o único transporte que consegue chegar.
Visitamos as maiores lagoas do estado do Amazonas e ficamos comovidos. Uma tragédia. Cardumes imensos boiando sobre os pequenos espelhos d'água. E a causa do desastre? Acredite: a alta temperatura dos rios, muito rasos, que acabam cozinhando, naturalmente, as espécies que ficaram presas. Quando não morriam escaldados no que parecia um "caldeirão", os peixes agonizavam em poças enlameadas. Levamos outro susto quando vimos homens pescando com as mãos.
Mas em meio à tanta tristeza, registramos a esperança. É que, felizmente, as cabeceiras das grandes bacias amazônicas já começaram a receber água das últimas chuvas. Os níveis dos rios ainda continuam muito baixos e os ribeirinhos vão precisar de um pouco mais de paciência, resignação, para que as águas restabeleçam a navegação e recomponham igarapés e igapós.
Conversamos com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), do Sistema de Proteção de Amazônia (Sipam) e especialistas em meio ambiente e recursos hídricos. Um dos especialistas no assunto, o professor Osório Fonseca, resume a avaliação unânime de quem conhece bem o aquele importante ecossistema: "A ambição que promove tanta atrocidade contra a floresta é também responsável pela seca prolongada". O poeta Thiago de Mello, uma das muitas vozes que gritam em defesa da floresta e com quem tivemos o prazer de viajar até Barreirinha, onde fica um dos seus refúgios, traduz, com a autoridade dos grandes mestres o sentimento do caboclo amazonense: " A Terra está com febre e essa seca de calamidade é vingança de Jurupari, o Deus que protege a natureza. E esse Deus estaria se vingando dos madeireiros, dos criadores de boi, dos plantadores de soja, dos incêndios criminosos, do desmatamento".

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