22.10.05

.... Canção dos Caramujos que vão ao Enterro

Ao enterro de uma folha morta
Dois caramujos se dirigem
Suas conchas vestem luto
E um véu negro cobre as antenas
Proseguem noite adentro
Uma linda noite de outono
Mas quando finalmente chegam
Já é primavera
As folhas que estavam mortas
Ressuscitaram todas
E os dois caramujos
Ficam bem desapontados
Mas o sol brilha
O sol que lhes diz
Façam façam o favor
O favor de sentar
Peçam um copo de cerveja
Se disso é que têm vontade
Ou tomem se preferirem
Um ônibus para Paris
Vai sair um hoje à noite
Vocês verão que beleza
Mas se livrem desse luto
Sou eu que lhes digo
Escurece o branco do olho
E além do mais enfeia
Essas histórias de enterro
São tão tristes e amargas
Recuperem suas cores
As cores da vida
Então todos os animais
As árvores e as plantas
Começaram a cantar
A cantar alucinados
A canção real da vida
A canção do verão
E todo mundo a beber
E todo mundo a brindar
Naquela noite tão linda
Linda noite de verão
E os dois caramujos
Rumam de volta para casa
Vão muito emocionados
Vão muito felizes
Depois de tanto beberem
É claro que cambaleiam
Mas no céu bem lá no alto
A lua vela por ele.
Poema: Jacques Prévert
Tradução: Carlito Azevedo
Achou estúpido? Pode até ser. Mas deve ser bonitinho dois caramujos com um véu negro nas antenas, ou melhor, cambaliando ... E alguns meses atrás, quando li esse poema pela primeira vez, ele não me pareceu nada estúpido, pois dizia algo sobre minha realidade...

Um Passeio por São Paulo

Eu me senti um bicho-do-mato perdido na cidade grande, praticamente uma Macabéa. E pela janela daquele ônibus cheio de galinhas distraídas que cacarejavam e soltavam penas, fiquei paralisada com os olhos brilhosos fixos na paisagem. Eram prédios que chegavam longe ao céu... Tinha também um exército de carros agressivos que soltavam fumaça. E em cada carro tinha um ser humano dentro! Prá onde ia tanta gente?

Fiquei deslumbrada também com a imponência dos outdoors. Todos tão grandes e tão coloridos! Só lembrei que havia vida naquele lugar por causa deles. Por causa das imagens de pessoas sorridentes e coloridas estampadas.
Ahhh... O Progresso!

O Progresso é fedido. Mas isso não importa, porque tenho dinheiro prá ir até loja O Boticário mais próxima e adquirir um doce perfume de muito garbo e elegância.

Ainda encantada com aquela paisagem que se apresentava na minha janela, lembrei das idéias que eu tinha quando era criança: aquele rio que agora eu via de espuma marrom e cheiro de progresso, antes, era para mim o local onde se jogavam os corpos das pessoas que morriam. Acreditava que havia milhares de corpos sedimentados naquela água suja. E, na minha mente criativa de criança, até era capaz de ver, de vez em quando, uns braços ou algumas pernas boiando. Tudo muito natural.
Mas agora eu sei que é só esgoto mesmo.

Chegando ao destino da viagem, as galinhas fofas foram comprar sapatos e eu fiquei observando aquele monte de gente. Quando se está num local grande e com muitas pessoas, é mais gostoso perceber que são todas do mesmo tamanho, iguais e únicas também. A diversidade é tão cheirosa! Linda e colorida. Ainda mais quando você finalmete percebe que todos fazem parte de você. Então, conhecer gente, muita gente, é como conhecer mais partes de seu corpo. Lindo e divertido.

Já estava noite mas o céu não escurecia. Ele era vermelho. E as luzes espalhadas pela grande avenida faziam com que fosse uma eterna seis horas da tarde.
E então fui assistir uma peça de teatro que quase conseguiu me fazer rir. Foi legal encarar essa arte como apenas mais um ramo do mercado. Atores por profissão, que falam coisas banais para entreter as pessoas que os pagam. Uma experiência nova pra mim.

Depois do circo, fui a uma pizzaria e conheci um duende ruivo. Ele me olhava com tanta profundidade e identificação que acho que trocavamos segredos só com o olhar. Deve ser porque nós dois somos curingas e nos reconhecemos naquela grande São Paulo cheia de copas, ouros, paus e espadas.

De barriga cheia e cansada, devido as tantas trocas de energia, cai de sono no caminho de volta. Eu devia estar realmente muito cansada, pois conseguir dormir no meio das galinhas alcoolizadas não é tarefa muito fácil.
No dia seguinte, ao acordar e poder sentir meu velho e conhecido Sol, estar de volta a minha bolha, fez-me sentir uma sensação muito boa, de quem acaba de acordar de um sonho surrealista.