1.3.06

Dos problemas, as virtudes?


Sim, claro, os problemas são as virtudes.
O mundo foi feito para os infelizes. Tudo gira em torno deles e para eles, qualquer rajada de vento, qualquer trombada distraída numa esquina, qualquer olhar. O acaso é movido com a função de alimentar apenas os infelizes.
Esse mundo é o mundo do movimento, das criações, das mentes inquietas. E como pode a felicidade criar, pensar?
A felicidade é imóvel e não pertence a este mundo. E se disserem que existem os felizes eu digo que estão por ai apenas para provocar e cutucar aqueles que não são, para criar mais movimento em nossas cabeças.

E se minha mãe estivesse aqui, minha família fosse sadia, minha casa aconchegante, os vasos com flores, bons amigos, namorado ensolarado, tranqüilidade, bastante dinheiro e olhos cegos não haveria espaço para meu pequeno mundinho criativo, para qualquer reflexão sobre mim mesma, sobre as coisas lá fora. Eu seria apenas uma boneca.
E não sendo uma boneca o que sou? Talvez eu ainda não vim a ser nada. Sim, é vergonhoso. Preciso rever isso...
Talvez eu deva ser muitas trovoadas até chover bastante e num dia ensolarado, cristalizar-me, e virar, finalmente, uma boneca. Finalmente? Não! Tudo é perecível, não permaneceria boneca por muito tempo... Pois é... Esse é o mundo do movimento, nada é definitivo...

Estou dizendo que a felicidade depende de fatos externos?
Não, não. Só digo que são eles que nos moldam, chegam até a manipular. Talvez os mais desfavorecidos são os mais queridinhos do tal acaso que move o mundo...

E é possível correr, correr e correr para pegar impulso e pular fora desse mundo, caindo no imóvel, no definitivo existir?
Ah... Isso foge de minha compreensão... Impossível para os inquietos...