FOLHA: À medida em que você guia o leitor pelo livro, você também descreve a destruição de um velho mundo pelo modo de vida consumista sociedade ocidental. Que outros prazeres foram esquecidos, além do ópio?
Tosches: Perdemos o maior prazer de todos que é o prazer de sermos nós mesmos. O amor pelo dinheiro, se tornar um rato numa cultura guiada pelo consumo destes tempos, faz de nós fraudes. Quando passando a maior parte de nossas horas acordadas num trabalho, fingindo que gostamos do trabalho, fingindo que gostamos de nosso chefe, fingindo que estamos interessados no nosso trabalho, então o fingimento torna-se um estilo de vida. Nos tornamos o que T.S. Eliot chamava de “homens ocos”. Quase tudo que consumimos, quase tudo que compramos, é placebo. Esses produtos de uma cultura consumista vazia é que são as verdadeiras drogas perigosas. Nossa “guerra contra as drogas” devia ser contra essas coisas.
FOLHA:Vivemos em dias em que até a crítica musical é considerada uma arte.
Tosches: “Arte” é uma palavra besta. Há muito tempo, homens pintavam imagens en cavernas. Hoje, as chamamos de arte. Para eles, era magia. Agora não temos quase nenhuma magia e tudo é chamado de arte. O pior cantor de música pop é agora um “artista”. De novo, “arte” se torna uma categoria sem significado.
FOLHA:Como as pessoas podem sair da segurança e conforto da vida diária e voltar a gostar do risco?
Tosches: Tendo a força e a coragem para não ligar pra nada, percebendo que este é o mundo dos aristocratas e não o seu, percebendo que o dom imenso e belo de respirar vivos é tudo que temos.
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Trecho da entrevista com Nick Tosches, autor de A Última Casa de Ópio, publicada pelo jornal Folha dia 5 de julho de 2006.