20.11.05

Meu domingo vazio

Vou transcrever o que ocorreu neste domingo frustrado...
Enquanto sai para caminhar fui fazendo anotações sobre o que eu via, sobre o que acontecia, sobre o que eu pensava... Tenho essa mania. Nada de metáforas, apenas uma narrativa descritiva... Sei lá!

Estou sentada no que restou de uma árvore cortada, numa rua desconhecida para mim, deserta e escura. O vento sopra muito forte e enche de nós o meu cabelo... E um homem em cima de uma motoca acabou de parar do meu lado: - Bruna? Não, não sou a Bruna, não conheço a Bruna. Ele apenas se confundiu.

Nunca estive aqui, e acho também que ninguém nunca esteve sentado nesse tronco escrevendo coisas vazias num caderninho, fazendo o vento soprar forte. Acho que não...
Estou procurando inspiração, motivação que me faça voltar para casa, voltar para as apostilas que me parecem tão pesadas e tão vazias... São tantos os compromissos com coisas que não gosto, coisas que não me são familiares, que não me são.
Vou caminhando... E passando por casas e mais casas... Pessoas dentro de suas casas, cada um com a sua, com seu carro estacionado na garagem, com suas coisas, cada um vivendo o seu domingo. Parece tudo tão calmo, tão ajeitadinho... São casas perfeitinhas e aconchegadas, cada uma dentro de sua personalidade. Vidinhas prontas e embaladas.
E eu procurando a minha vidinha. São tantos os caminhos! Não sei por onde caminhar, já que existem tantas possibilidades...

Crianças cantando parabéns na casa ao lado... Um felipe está fazendo aniversário. Hoje é o dia do Felipe.
- Pro felipe nada... Tudo!

E continuo caminhando, e vou de encontro com o vento porque não gosto de vento batendo nas costas.
Acabo de parar num ponto de ônibus. Estou numa avenida. Os ônibus passam e eu continuo aqui, lendo coisas que escrevi no passado neste mesmo caderninho. De repente o sino da igreja começa a tocar. Que bonito, quem será que está tocando? É uma pena o grito dos carros atrapalharem tanto.
E uma senhora enrugada retoca a maquiagem e ajeita os cabelos pintados de vermelho. É uma senhorinha limpa e elegante.
E de que vale a vida? De que vale a minha vida? Que valor eu devo dar a ela? Quanto eu devo agregar? Não consigo formular direito a pergunta... “É melhor ser Van Gogh ou Zé da Silva?”

Vejo os pombos no asfalto, eles sabem voar alto, mas insistem em pegar as migalhas do chão”. Só uma música que acaba de me passar pela cabeça...

- Dona Maria faz 84 anos hoje.
- Que belezinha.
- Que sofrimento...
- É... A vida é uma luta, né?
Hã??? É mesmo?
Só o diálogo de duas senhoras bonequinhas. Acho que uma delas é professora aposentada.

Mais um ônibus passou e todo mundo se foi. E eu fiquei vendo uma sacolinha voar... Clichê, mas é verídico, é a segunda sacolinha a rodopiar pelas ruas hoje.
E algumas nuvens começam a se dissipar, começo a enxergar o céu azul e a claridade do Sol começa a brilhar. Outra sacolinha. Levanto-me e vou embora.

“Sou descobridor da natureza”
“ E tem o mesmo sorriso antigo”

Duas frases lidas sem querer, duas frases que gritaram para meus olhos neste momento.

Mais uma sacolinha... Eu juro!
E de repente sinto cheiro de jasmim na esquina...
Ah! As sacolinhas rodopiando... Acho que é a quarta.

Que lindo! Agora que dobrei a esquina de casa o Sol começa a me aquecer, e o dia ficou bonito, o céu por aqui está azul. Passo pelo portão e estouro uma semente daquela flor chamada beijinho (minha avó chama de maria-sem-vergonha). E... Oh não! Outra sacolinha! Voou até meu pé e depois foi embora. Êita cidade suja!

"A ambição promove tanta atrocidade contra a floresta é também responsável pela seca prolongada".

Making of da reportagem "Amazônia em Crise":


Bela e triste Amazônia

Por José Raimundo

Gostaria muito de fazer um relato de viagem baseado em impressões de visitas anteriores que fiz à Amazônia. Foram aventuras emocionantes e enriquecedoras. Imagens de tirar o fôlego e conversas prazerosas com os sábios caboclos do Norte, sem esquecer os índios, tão sábios quanto. Impossível não lembrar que aquele santuário infinito abriga a harmonia incomparável entre o homem nativo e a riqueza da fauna. Em meio aos labirintos inundados de floresta densa, os bichos viviam em festa. Meu coração também era contaminado pela alegria dos animais e a beleza da selva. Eu voltava para casa em estado de graça.
Mas desta vez, confesso: preferia não ter visto tamanha calamidade. Encontrei uma Amazônia irreconhecivelmente triste. Nunca imaginei que fosse botar os olhos em vazantes imensas como as deste ano. Já acompanhei períodos de seca na região em anos anteriores, mas com doses, diria, suportáveis de castigo. Eu, a editora Ana Helena Gomes, o repórter cinematográfico José de Arimatéa, o técnico Adriano Moraes e até o nosso amigo Carlos Barbosa, da TV Amazonas, bom companheiro de viagem, ficamos todos assustados com o que testemunhamos. Cenas que impressionaram também os colegas da edição de imagens: Adriana Nagle, Francisco Carvalho e Gisele Machado.
Na maior reserva de água doce da Terra, a sede tem obrigado a população ribeirinha a enfrentar caminhadas de vários quilômetros – duas, três vezes por dia – até encontrar rios capazes de fornecer água potável. Sem falar da fome, um drama que, desta vez, atingiu milhares de famílias. Não fosse uma operação emergencial de socorro, envolvendo governo, Forças Armadas e Defesa Civil dos municípios, a situação seria muito mais grave. Em muitas regiões onde se localizam comunidades que ficaram isoladas, o helicóptero é o único transporte que consegue chegar.
Visitamos as maiores lagoas do estado do Amazonas e ficamos comovidos. Uma tragédia. Cardumes imensos boiando sobre os pequenos espelhos d'água. E a causa do desastre? Acredite: a alta temperatura dos rios, muito rasos, que acabam cozinhando, naturalmente, as espécies que ficaram presas. Quando não morriam escaldados no que parecia um "caldeirão", os peixes agonizavam em poças enlameadas. Levamos outro susto quando vimos homens pescando com as mãos.
Mas em meio à tanta tristeza, registramos a esperança. É que, felizmente, as cabeceiras das grandes bacias amazônicas já começaram a receber água das últimas chuvas. Os níveis dos rios ainda continuam muito baixos e os ribeirinhos vão precisar de um pouco mais de paciência, resignação, para que as águas restabeleçam a navegação e recomponham igarapés e igapós.
Conversamos com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), do Sistema de Proteção de Amazônia (Sipam) e especialistas em meio ambiente e recursos hídricos. Um dos especialistas no assunto, o professor Osório Fonseca, resume a avaliação unânime de quem conhece bem o aquele importante ecossistema: "A ambição que promove tanta atrocidade contra a floresta é também responsável pela seca prolongada". O poeta Thiago de Mello, uma das muitas vozes que gritam em defesa da floresta e com quem tivemos o prazer de viajar até Barreirinha, onde fica um dos seus refúgios, traduz, com a autoridade dos grandes mestres o sentimento do caboclo amazonense: " A Terra está com febre e essa seca de calamidade é vingança de Jurupari, o Deus que protege a natureza. E esse Deus estaria se vingando dos madeireiros, dos criadores de boi, dos plantadores de soja, dos incêndios criminosos, do desmatamento".