Durante o caminho de volta pra casa...

Numa noite dessas...
Caminhando a noite ia atravessando ruas, ia subindo ladeiras e chutando pedras, ia pisando em asfalto, em terra, em pedregulho, grama, mato...
Beirava às onze horas da noite. Noite sem estrelas, noite úmida de céu nublado e com cheiro de cidade...
E velhas angústias, umas velhas questões, a acompanhavam. Ela muito pensava, refletia, mas não chegava a lugar algum. Havia algumas centenas de pensamentos que corriam, corriam, e se atropelam uns aos outros...
Carros, faróis, caixa d’ água, cheiro de água, água! Estava chuviscando! Sim! Estava chuviscando e ela nem havia percebido! Há quanto tempo será? Seus cabelos já estavam molhados e a blusa cheia de pingos.
E passava por ruas, casas, lembranças... Travava diálogos imaginários com uma porção de gente e alguns diálogos com ela mesma.
Mais casas, e uma casa vazia de quintal grande e pés de mangueira... E a noite escura.
De repente se lembra do guarda-chuva guardado na sacola. Pensa uma, duas vezes... Caminha mais um pouco, chuva aperta e então decidi pegá-lo.
Desajeitada ela o abre e de dentro cai um crocodilo. Ele até a assustou, pois seu rabo esbarrou em sua cabeça. Mas logo ele se encolheu e ficou lá dentro enrolado.
Caminhar, pensar e refletir com aquele bicho grande sob a sua cabeça era meio difícil. Ele fazia o guarda-chuva ficar pesado e também incomodava, ora... Imaginem só... Um crocodilo em cima da cabeça incomoda!
Foram mais uns quarteirões de caminhada. Vez ou outra o animal dava uns botes tentando morder ela, mas ele só conseguia mordiscar e puxar uns fios de cabelo. Ai... Como ele incomodava... Era muito grandalhão, feio, pesado e com grossa carapaça áspera e fria (estava molhado de chuva). E a cara não era nem um pouco amigável, muito escura.
E ela lá, caminhando. Só. Sozinha. Pensando. Ela é e só, não procura muitas companhias. É de sua natureza.
- E você não gostaria de ter alguém? – alguém perguntou.
- É... Nunca tive ninguém que “é comigo” – respondeu a alguém que era apenas um alguém de seu diálogo imaginário.
E de repente o crocodilo ficou mais dócil. E ela pode ver seus olhinhos brilhosos de filhote. Até fez um carinho.
-Toda aquela carapaça dura e espinhenta... Pobrezinho, ele é um crocodilo! – pensou.
E o bicho se enrolou mais ainda no guarda-chuva, como um cãozinho molhado se escondendo de trovões... E bem quietinho ficou.
Chegando em casa abriu o portão mais que de costume, fazendo assim a rua entrar em sua casa, ou a casa continuar pela rua...
Mais alguns passos e fechou o guarda-chuva, deixando ele lá, na chuva, do lado de fora. Enquanto barulhos, vozes, cores e luz acesa a esperavam do lado de dentro.


